Refúgio Ave Fenix

Aqui seguem algumas fotos do lendário Refúgio de Peregrinos Ave Fênix, de Jesús Jato, em Villafranca del Bierzo.Para quem conhece, é para matar as saudades. Quem nao, para conhecer e nao deixar de lá passar, quando estiver no Caminho Francês.E a todos que lá passaram, um grande abraço. Jesús, Maria, Cecilia, Carlos, Runa, saudades!Ultreya! A Santiago!Henrique

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Na falta de palavras…

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Os cans galegos

Nao consigo deixar de pensar nos cachorros do caminho. Ano passado, poucos caes latiram para nós. Nem notei muito. Agora, em Portugal, como escrevi antes, via a alegria nos olhos dos bichanos. E notei bem a diferença com os cachorros galegos, assim que cruzamos a fronteira, depois de Valença do Minho. Como pensava, estao acostumados com os peregrinos. Nem sequer olham. Uma vez, um can (como falam os galegos) nem se dignou a levantar a cabeça para latir. Ladrou deitado mesmo. Quanta indiferença…

Nosso caminho atualizado


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Alguém para quem latir ou A imensurável alegria de latir ou Por quem dobram os latidos

Já estamos há duas semanas caminhando. Mas não há muito tempo que cruzamos tantos povoados, aldeias, aldeolas. Notei que os portugueses são grandes admiradores de flores – rosas principalmente -, laranjeiras, ameixas, e cães.

Notei também a, digamos, felicidade dos cães quando nos veem passar. Atravessamos os povoados de cima a baixo, passamos em frente de todas as casas, quase sempre vazias – quem cuida das flores? Enfim, ao entrar numa aldeia, somos recebidos por latidos, que ecoam tanto pela manhã quanto no fim de tarde pelas desertas ruas do interior de Portugal. Às vezes sabemos que há peregrinos mais à frente pois ouvimos de longe a alegria dos cães. E digo alegria pois pulam no portão, abanam o rabo, mexem-se com vigor.

Com isso, fiquei pensando que estavam sozinhos demais, pois nunca. ou raramente, vemos alguém nas casas ou ruas. Depois, creio que resolvi o mistério. Percebi que não há mais carteiros à pé. Ou passam de moto, ou de carro, entregam a carta e seguem adiante. Quanto às outras pessoas, se são da vila, os cães conhecem e nem ligam. Desconhecidos não passariam por essas povoações…

Aí que entram os peregrinos, a nova onda de caminhantes, descobrindoa estrada a Santiago. Estamos a substituir os carteiros. Não havia mais ninguém a quem latir. A vida andava muito maçante. É difícil para nós o caminhar, mas fico pelo menos mais feliz que a alguém trazemos uma nova alegria. Toda vez que ouço os cães, fico um pouco mais tranquilo na nossa viagem.

Novo ânimo

Encontramos em Tomar duas peregrinas mineiras, Eva e Irene. Caminhamos ontem e hoje com elas. E, coincidência ou não, o Caminho melhorou desde então. Não tomamos chuva, nem sol, e conseguimos fazer nossas metas. E os trechos estão mais bonitos, mais com cara de Caminho, fluindo melhor, permitindo pensamentos. Enfim! Rumo à Coimbra!

Abs

Curiosa sucessão de eventos

Vila Nova da Barquinha, 10.05.2009

Curioso como os eventos se sucedem. Hoje é o nosso 5o dia de caminhada, dos quais apenas 2 podem ser descritos como bem-sucedidos (dentro da nossa proposta – afinal chegamos sempre vivos ao final do dia). De Vilafranca de Xira a Azambuja e a Santarém conseguimos cumprir nossa meta. De Lisboa a Alverca e a Golegã ficamos pelo caminho. As etapas são puxadas demais.

Ontem, depois de uma longuíssima caminhada de Vale do Figueira a Azinhaga, não conseguimos passar de Pombalinho, 3km antes de Azinhaga, que nem sequer constava do guia! Uma imensa trovoada aizinhava-se, a Katia havia caído na trilha e meu estava azul (!) – não tive dúvida, chamamos um táxi e fomos para Golegã, que era a meta. Com uma certa insistência, conseguimos um quarto, com cozinha, no parque de campismo. Tinhámos um teto, mas o tempo era péssimo.

Estávamos muito cansados – começar um caminho tão forte não é recomendável – e concordamos que no dia seguinte não andaríamos tanto, para ter tempo de recuperar forças.

De manhã, o tempo não estava bom, mas o suficiente para caminhar. Dormimos um pouco mais, já que planejávamos caminhar apenas 10 km. Numca caminhada tranquila, com apenas alguns cães correndo atrás de nós, chegamos na entrada de Vila Nova da Barquinha, umas 3h h depois de partir.

Aí começam os eventos.

Minha intenção era para em alum bar por ali, descansar os pés e continuar para o Residencial ali em Vila Nova, ou continuar mais 3km para um residencial em Atalaia, dependendo do preço. Então, num cruzamento do caminho com a rodovia, na entrada da vila, aparece um senhor carregando gravetos. Perguntei a ele se havia algum bar por perto. Havia um à esquerda, a 500m, e outro à direita, a 1km. Agradeci e seguimos para o mais perto. Estava fechado. Liguei para o Residencial que ficava nesta localidade, e o quarto saia por 40€. Resolvemos ficar. Voltamos por onde viemos, e neste caminho encontramos um grupo de peregrinos a Fátima, com seus coletes fluorescentes. Depois pensei que deveria ter tirado uma foto deles. Mais à frente, antes do residencial, que ficava à esquerda, vi umas senhoras peregrinas e pedi pra tirar uma foto. Disseram que logo ao lado estava o grupo todo. Fui atrás. Um escoteiro no portão indicou o galpão nos fundos. Lá estava um enorme grupo de peregrinos recebendo lavapés. Ofereceram-nos água e café, bolachas. De repente, apareceu um bombeiro – ali era o quartel.

Apresentei-me, disse que caminhávamos para Santiago. O simpático bombeiro, Alexandre Amorim, então nos ofereceu acolhida ali. Nem esperava, pois a primeira vez que paramos em bombeiros, disseram que essa possibilidade era lenda, e nem aceitavam mulheres. Enfim, aceitamos, tomamos um belo banho quente e depois fomos conhecer a cidade, digo, vila, de Vila Nova da Barquinha, que fica à beira do Tejo. A única coisa aberta era uma bar na beira do rio. E cá estamos tomando umas cervejas.

Enfim, tudo isso para descrever a cadeia de eventos que nos levaram cá.

Não fosse o senhor com gravetos, não teríamos ido ao bar fechado, depois não teríamos encontrado os peregrinos a Fátima que me fizeram pensar em uma foto, e não teria perguntado às senhoras se poderia fazê-lo, que não teriam me indicado o galpão dos bombeiros, onde não teria conversado com o bombeiro que acabaria por oferecer acolhimento. Na falta de qualquer um destes fatos, e não estaríamos aqui bebericando, observando calmamente o tempo abrir, à beira do Tejo. Muito curioso

Falta de tempo

Definitivamente não esperava tantas dificuldades por aqui. Chegamos muito tarde nos objetivos e não há tempo nem forças pra escrever. Há muitos centros de internet, em vários lugarejos, mas não há tempo. Desculpem-me.

Prólogo

Ainda não acredito que em menos de um dia embarcarei para mais um Caminho. Nem nos meus sonhos mais otimistas eu imaginava que apenas um ano depois de ter vivido o Caminho de Santiago eu estaria de novo percorrendo os caminhos de Tiago.

É um outro caminho, são outros objetivos, mas estou com a mesma ansiedade, a mesma dor de barriga de um ano atrás. Dessa vez, mais experiente, não tive problema algum em fazer a mochila. Tampouco viajarei sozinho. Por quê estou nervoso? Não sei.

Por mais experiente, por mais preparado, por mais programado, por mais planejado, creio que é impossível não ficar nervoso, ansioso. Não há como, penso eu, tirar o imprevisto e o improvável do caminho – qualquer caminho (inclusive a vida). A graça de tudo está nessa sensação de não saber o que vem por aí.

Logo, eu parto. E uso as minhas palavras de inspiração (originalidade não é meu forte), minha interpretação do soneto de Goethe. Do calor do vinho, do sabor da comida, do conforto e de tais coisas, pouco fica. Da companhia, abro mão no momento. Assim posso viajar tranquilo pelo mundo. Tudo o que eu necessito é ter a todo momento e que imprescindivelmente trago comigo: amor.

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Espero obter mais sucesso em atualizar este diário do que tive com o do ano passado – que ainda não consegui terminar. Mas tudo depende de tempo e tecnologia. A idéia aqui, durante a caminhada, é deixar o mínimo de informação de onde estamos e o que vem pela frente. Depois, atualizar etapa por etapa este Caminho Luso que tanto tem a contar.

Até breve.

Henrique

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